quarta-feira, 18 de outubro de 2017

E SE NÓS SIMPLESMENTE ACREDITÁSSEMOS NAS MULHERES?

Confie/acredite nas mulheres, uma necessidade

Vinícius, leitor do blog há três anos, me recomendou e traduziu este ótimo artigo escrito por Jessica Valenti para a Marie Claire americana.

Uma das razões pelas quais Harvey Weinstein foi capaz de alegadamente atacar mulheres por 30 anos é que as vítimas temiam que ninguém as ouvisse caso elas se apresentassem.
Acreditar em mulheres soa bastante simples; não deveria ser uma ideia radical. Mas em um país –- um mundo, na verdade –- onde as mulheres são rotineiramente dispensadas quando falam, algo tão básico como confiar em nós pode ser revolucionário.
Imagine se nossa cultura acreditasse nas mulheres que denunciam assédio sexual, abuso e agressão. Se acreditasse, talvez as vítimas do suposto comportamento predatório de Harvey Weinstein não temeriam denunciá-lo por conta própria. A atriz Katherine Kendall explicou ao The New York Times  que ela não contou a ninguém sobre o assédio que sofreu nas mãos de Weinstein porque “Eu nunca trabalharia de novo e ninguém iria se importar comigo ou acreditar em mim”. Se as mulheres soubessem que seriam tão acreditadas quando denunciassem como, digamos, um homem é, isso significaria não apenas que mais mulheres se sentiriam seguras denunciando –- mas que abusadores não se sentiriam tão protegidos.
Nadador de Stanford Brock Turner
deixou a prisão após três meses.
Sua vítima de estupro ainda está
cumprindo sua sentença
Imagine se mulheres como a vítima de Brock Turner -- que falou tão eloquentemente no julgamento de seu agressor -- fossem ouvidas, não apenas pelo público que leu sua declaração viral, mas por policiais e juízes e legisladores. “Eu não sou apenas uma vítima alcoolizada em uma festa de fraternidade encontrada atrás de uma lixeira”, ela disse. Não que ela não tenha sido tratada como uma. 
Imagine se nós tivéssemos uma administração que acreditasse em especialistas e vítimas em vez de acreditar em grupos antifeministas abusivos que (erroneamente) insistem que mulheres mentem quando se trata de agressão sexual.
Imagine se alguém tivesse acreditado na primeira mulher que acusou Bill Cosby de estupro. Imagine se não viessem outras mulheres depois dela por conta isso. 
Entretanto, acreditar nas mulheres vai além de histórias de agressão e assédio. 
Como os médicos levam a dor
das mulheres menos a sério
Imagine se nós acreditássemos nas mulheres quando elas dizem que estão sentindo dor. Estudos mostram que médicos e hospitais levam as dores das mulheres menos a sério e as tratam menos agressivamente do que as dores dos homens. Para dor abdominal aguda, por exemplo, homens esperam em média 49 minutos antes de receberem medicação; mulheres, no entanto, esperam uma média de 65 minutos. Talvez se médicos acreditassem nas mulheres quando elas dizem que sentem dor, nós não ouviríamos tantas histórias de mulheres passando anos em agonia, esperando alguém para diagnosticar suas endometrioses ou fibromialgias.
Imagine se legisladores acreditassem nas mulheres quando elas dizem que não estão prontas para ter filhos ou que merecem o direito de escolher quando engravidar. Pense em todo o sofrimento que poderia ser evitado se as pessoas que supostamente nos representam realmente acreditassem que mulheres sabem o que é melhor para seus corpos e suas famílias. 
George Tiller foi um médico piedoso
que arriscou sua vida para ajudar
mulheres. Ele foi assassinado por
um terrorista pró-vida
Há um motivo pelo qual o Dr. George Tiller -- assassinado por realizar abortos -- repetiu várias e várias vezes: “Acreditem nas mulheres”. Ele entendia que as decisões complicadas que mulheres fazem a respeito de sua saúde e de suas vidas cabem a elas. A mais ninguém. Imagine se políticos acreditassem na mesma coisa; o que isso significaria para mulheres que são constrangidas, forçadas a enfrentar tribulações e a colocarem-se em perigo para seguir leis anti-escolha arbitrárias e perigosas. 
- Eu não confio nas mulheres!
- É! Muitas delas querem se
casar com homens
Imagine se nós acreditássemos nas mulheres que dizem que seus namorados ou maridos as machucam. Imagine se impossibilitássemos que esses homens tivessem armas. Nesse momento, 35 estados nos EUA permitem a um homem possuir uma arma mesmo que ele tenha sido condenado por violência doméstica ou recebido uma ordem de restrição. E se nós acreditássemos nas mulheres que dizem que seus parceiros colocam suas vidas em perigo? Quantas mulheres a mais estariam vivas porque nós acreditamos nelas?
Imagine, se você puder suportar isso, que a América tivesse acreditado em Hillary Clinton. Antes da eleição de 2016, várias pesquisas de opinião mostraram que eleitores achavam Donald Trump -- um homem que mente tão naturalmente como respira -- mais confiável que Clinton. O primeiro anúncio de campanha de Trump continha uma mentira a cada quatro segundos; e ele contou pelo menos uma mentira todos os dias nos primeiros 40 dias de sua presidência. Ainda assim, de alguma forma, era Clinton quem era confiável. Pense em quão diferentes nossas vidas seriam nesse momento se essa mulher, em quem muitos não acreditaram, estivesse no comando do país. 
Se o feminismo não fosse poderoso
e influente, as pessoas não gastariam
tanto tempo desprezando-o -
Jessica Valenti
Eu não acho que isso deva ser um exercício de otimismo sonhador. É verdade que ainda não atingimos o ponto de virada em que as pessoas acreditam amplamente nas mulheres, ainda não. Mas à medida que mais e mais mulheres denunciarem, que pessoas começarem a acreditar que o que elas falam é verdade, nós podemos e iremos chegar a esse ponto. Até lá, mulheres, eu acredito em vocês.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A REVOLUÇÃO VIVE: CEM ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Em “A Caixa de Pandora e a polícia voluntária”, um dos capítulos do excelente livro Os Homens Explicam Tudo para Mim, Rebecca Solnit diz que, depois que a caixa de Pandora (que na realidade era um jarro) foi aberta, não pode mais ser fechada.
“O fato de que uma mudança tão grande", diz ela, referindo-se à emancipação das mulheres, "tenha sido realizada em quatro ou cinco décadas é incrível; o fato que nem tudo tenha mudado de maneira permanente, definitiva, irrevogável não é um sinal de fracasso”.
E uma coisa influencia outra. Por exemplo, complica falar da Revolução Russa de 1917 como um fracasso. O pensador anarquista David Graeber diz: “a Revolução Russa de 1917 foi uma revolução mundial; em última instância, foi responsável também pelo New Deal [as medidas econômicas e sociais realizadas por Roosevelt na década de 30 nos EUA] e pelos Estados do bem-estar social na Europa, tanto quanto pelo comunismo soviético. 
"A última da série foi a revolução mundial de 1968 – que, tal como em 1848, estourou em quase todos os lugares, da China ao México, e não tomou o poder em nenhum lugar, mas mesmo assim mudou tudo. Foi uma revolução contra a burocracia estatal e a favor da inseparabilidade da libertação pessoal com a libertação política, e seu legado mais duradouro provavelmente será o nascimento do feminismo moderno”.
Sim, definitivamente: assim como há ligações estreitas entre o feminismo e a revolução socialista (já que o feminismo é, por si só, uma revolução), também há ligações entre o capitalismo e o machismo. Para Solnit, o capitalismo “encarna o pior que há no machismo, enquanto destrói o que há de melhor na Terra”.
Apesar de todas as forças conservadoras, as mulheres nunca se renderam. Solnit é otimista. Ela diz que tudo mudou, e que não há volta. “Naquela época [anos 1960], argumentar que as mulheres deveriam ser iguais aos homens perante a lei era uma posição marginal; hoje, argumentar que não devemos ser iguais é uma posição marginal nesta parte do mundo, e a lei está, de modo geral, do nosso lado”.
(Pessoas queridas, vou aproveitar o post para tentar de novo sortear entre quem deixar algum comentário aqui o incrível livro de Solnit. Mas vocês precisam ficar atentxs! Quem ganhar precisa me mandar um email com o endereço no mesmo dia, por favor!).
Agora é Outubro Vermelho, mês da Revolução Russa, mas não é um outubro qualquer -- é o centenário da revolução. Por isso, é muito pertinente avaliarmos sucessos e fracassos. Deixar de falar da Revolução Russa porque a União Soviética se esfacelou em 1991 parece ser uma tentativa de apagar a história.
Pra quem não sabe, antes da Revolução, que na realidade se deu em duas fases, em fevereiro e outubro, cem anos atrás, a Rússia vivia um modelo praticamente feudal, com uma monarquia comandada por um czar. 
Hoje considera-se que, sem as greves realizadas por mulheres operárias em fevereiro de 1917, a Revolução poderia não ter ocorrido. Tampouco teria acontecido se não fosse a 1a Guerra Mundial (e a imensa miséria causada por ela). Assim, com a intenção de acabar com a guerra e de lutar contra as opressões, a União Soviética se tornou o primeiro país socialista do mundo.
Volkov, 91 anos, neto de Leon Trotsky, falou anteontem (em vídeo apresentado no Congresso da Conlutas) da importância em "restabelecer a verdade histórica e deixar claro que o stalinismo é a antítese do comunismo e do socialismo, e vem sendo um dos maiores obstáculos".
Outra pessoa que falou no Congresso, através de um vídeo, foi a historiadora feminista americana Wendy Goldman, que lembrou que a Revolução Russa soube respeitar a questão das mulheres:
"Eles tiveram um dos programas mais radicais já vistos em respeito da emancipação das mulheres. Este programa ainda tem muita relevância. A ideia de mulheres emancipadas se baseou em três princípios básicos. O primeiro foi a ideia de amor livre, na qual nem o Estado, nem qualquer religião poderia atuar sobre os relacionamentos livres das pessoas. Para concretizar essa visão, tiveram que mudar aspectos da vida material. O primeiro foi que as mulheres precisavam ter independência financeira e autonomia. O segundo princípio era a total socialização do trabalho. Tarefas típicas de mulheres na época passaram a ser remuneradas. Finalmente, em 1920, a União Soviética tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar o aborto".
Já em 1920 uma grande ativista, Aleksandra Kollontai, escrevia, mostrando que a Revolução também foi feminista: "O capitalismo colocou um fardo pesado sobre os ombros da mulher: a converteu em trabalhadora assalariada, sem reduzir seus cuidados como dona de casa ou mãe".
Para falar do centenário da Revolução Russa, convido o pessoal de Fortaleza para hoje, 17 de outubro, das 10h ao meio dia, comparecer a UFC. 
O socialismo foi/é uma alternativa a um sistema que concentra nas mãos de oito homens a riqueza de 3,6 bilhões de pessoas. Sim, é verdade: oito caras têm o mesmo patrimônio que metade da população mundial. Se você chama um modelo econômico desses de "sucesso", não quero nem ver o que você considera um fracasso. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MORALISTAS NÃO SE CHOCAM COM ARTE DE GENTILI

Semana passada o crapulento Danilo Gentili lançou seu filme. Não é exatamente seu, mas é com ele, roteiro dele, baseado no seu livro (uma espécie de guia de auto-ajuda para bullies) Como Ser o Pior Aluno da Escola
A comédia "politicamente incorreta" (eufemismo pra "abertamente preconceituosa") foi feita com R$ 2,5 milhões da AncineDinheiro público para ensinar o respeitável público da 4a Série B (embora o filme tenha a classificação para maiores de 14 anos) a explodir privadas da escola (ocupação de escolas é que é vandalismo!), a aterrorizar professores (tá na moda mesmo), a desprezar o combate ao bullying, e a incentivar menores a beber  até cair (ou seja, Gentili ter dado vodka a Maisa em seu programa foi merchandising). Mas é a "ideologia de gênero" que é uma influência nefasta pra criançada!
Eu não vejo um filme desses nem que me paguem um mês de salário do Gentili no SBT, mas um jornalista da Folha noticiou que, na exibição para jornalistas, alguns comentaram sobre uma cena no início em que o personagem interpretado por Fábio Porchat se oferece para ajudar dois meninos de 14 anos a encontrarem o "pior aluno da escola" (protagonizado por Gentili) se eles o masturbarem (o Porchat, não o Gentili). No clima moralista em que vivemos, parece ser uma piada bastante delicada, digamos. Mas como é humor, pode tudo. Já arte não pode. E quem determina o que é ou não arte são aqueles que promovem cruzadas para fechar museus.
Gentili tem choramingado muito por causa do que o jornalista escreveu, e convocou seus gentiliminions a atacá-lo (mesmo que apenas 41% dos seguidores do reaça disfarçado de humorista sejam reais, ainda assim é um bocado de gente com QI negativo). O jornalista foi demitido da Folha no dia seguinte.
Participantes da Marcha das Vadias
pregam cartazes na entrada do
Comedians em 2011
Como eu digo sempre, não existe ninguém mais vitimista que reaça. Gentili foi à rádio Joven Pan reclamar que recebeu moção de censura de senador, e que grupo político organizado (ele está falando da Marcha das Vadias em 2011?) pichou o seu bar (na realidade, foi na época da piada de estupro do Rafinha Bastos; ou seja, Gentili foi solenemente ignorado pelas ativistas -- nada organizadas, por sinal).
Gentili teve a pachorra de declarar: "O que acontece no Brasil não é o que você faz, é quem faz. Se eles te elegeram inimiguinho da agendinha deles, você tá errado. É uma máquina de assassinar reputações, você tem uma panela que tá em posse dos megafones e que precisa exterminar a reputação de qualquer um que fala qualquer coisa contra a agendinha que eles defendem". 
Eu fico sem saber em que mundo Gentili vive em que quem protesta contra ele "tá em posse dos megafones". Não é ele que tem um programa de TV há anos e que dá entrevistas a rádios reaças sempre que quiser? 
Nenhuma novidade no mimimi da direita. O que me chama a atenção é justamente essa diferença de tratamento, isso que Gentili definiu como "não é o que você faz, é quem faz". Por exemplo, vocês viram o escândalo que reaças fizeram em relação a um quadro da artista plástica Adriana Varejão que criticava o colonialismo no Brasil e continha um desenho de uma pessoa transando com uma cabra. "Isso não é arte, é zoofilia", berraram os reaças. 
Um empregado de Gentili, o inútil Roger, aquele que já disse atacar ideias, não pessoas, chegou a rabiscar um pênis e a palavra "puta" numa foto da artista (mas evidente que esse foi um ataque pessoal às ideias de Adriana, não a ela).
Bom, um ano e meio antes Gentili tinha feito um post para comemorar o Dia dos Namorados. Em meio a almofadas em formato de coração, o comediante, nu, acariciava uma cabra.
Um número reduzido de seguidores seus se incomodaram, mas o post teve centenas de milhares de curtidas, e a maior parte o defendeu. "Danilo é humorista e não ativista da sociedade defensora dos animais", alegou uma fã (do Gentili, não da cabra). Obviamente, nenhum de seus fãs o chamou de zoófilo porque, ora bolas, é só uma piada!
Em outras instâncias, parece que palavras como zoofilia e pedofilia saem fácil das bocas dos reacionários moralistas que agora viraram críticos de arte. Tipo: o quadro ao lado, exibido no Queer Museu, foi acusado de apologia à pedofilia. A obra da artista Ropre também, a ponto de ser recolhida pela polícia (embora tivesse as palavras "O machismo mata, violenta e humilha" escritas). 
A performance do coreógrafo nu no Museu de Arte Moderna, então, não preciso nem falar (percebam as palavras que reaças vem usando para descrever o toque de uma menina no calcanhar do artista: "apalpar" e "bolinar". Quando escrevi que estavam espalhando a mentira de que uma garotinha pegou no pênis do artista, eles se revoltaram: "Ninguém disse isso, sua escrota!". Continuam espalhando, até na escolha das palavras. Digamos que "bolinar um calcanhar" não seja o uso mais comum). 
Enfim. Vamos supor que no filme do Gentili um adulto diga a dois garotos de 14 anos que ele os ajudará caso eles o masturbem. É uma troca de favores, certo? Pagos com sexo. Qual a reação dos conservadores que se preocupam tanto com as nossas crianças?
Que eu saiba, não tem ninguém saindo da sessão de cinema de Pior Aluno escandalizado, chorando como esta senhora ao deixar a galeria do Palácio das Artes em BH, precisando ser amparada, tamanho seu desespero ("É atentado à sociedade brasileira. É uma exposição que bate palma para a pedofilia, para a zoofilia", disse um pastor sobre a exposição de Pedro Moraleida, não sobre a arte gentilesca).
Não tem pichação às salas de cinema que exibem o filme. 
Não tem deputado estadual mandando a polícia apreender a obra e prender o artista, colocando-o, inclusive, no cadastro de pedófilos do Estado.
Não tem abaixo-assinado com mais de 80 mil assinaturas pedindo o fechamento imediato dos cinemas (vejam bem, não é petição para parar de exibir o filme, mas pra fechar definitivamente o cinema!). 
Não tem o maior representante da moral e dos bons costumes e da família tradicional brasileira, Alexandre Frota, gritando na porta do cinema com megafone (é dele a posse dos megafones a que Gentili se refere?) ou indo ao Ministério Público entrar com representação contra o filme.
Não tem o MBL invadindo as salas de cinema e filmando os espectadores, sem sua autorização, enquanto pergunta "Você gosta de pedofilia?".
Não tem carinha vestindo camiseta do Bolsonaro e fazendo uma dancinha absolutamente genial pra se contrapor a quem defende o filme (e muito menos tem o hilário coro de "Faz de novo, faz de novo!").
Não tem qualquer campanha de censura, opa, eu quis dizer boicote ao filme. 
Passa a impressão de que a indignação reaça é bastante seletiva. Ou talvez os moralistas estejam seguindo os ensinamentos do mestre humorista: "Não é o que você faz, é quem faz".
Pelo menos Bolso se indignou com o filme! Ops, não, foi com a performance no MAM
 

domingo, 15 de outubro de 2017

DIA DA PROFESSORA E DO PROFESSOR. SEGUIMOS NA LUTA!

Hoje, mais do que nunca, é tempo de resistir, de se posicionar. 
Tenho orgulho de ser professora. Sei que estamos sendo perseguidos. São tempos perigosos.
Que Paulo Freire (um dos pedagogos mais respeitados e influentes do mundo) continue a nos ensinar, sempre.
Menos Frota, pelamor, mais Freire!

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

OS ESTUPROS E ASSÉDIOS PRODUZIDOS POR HARVEY WEINSTEIN

O mundo de Harvey Weinstein ruiu na penúltima quinta, quando o jornal New York Times publicou um artigo em que narrava décadas de assédio sexual do famoso produtor. 
Harvey Weinstein e realizadores
recebem Oscar por Shakespeare
Apaixonado
, em 1999
Como aponta Ronan Farrow (filho de Woody Allen e Mia Farrow) em seu artigo demolidor na revista New Yorker (segundo ele, três atrizes o acusam abertamente de estupro), os filmes produzidos por Weinstein (entre eles Pulp FictionA Vida é Bela, Shakespeare Apaixonado, O Discurso do Rei, Chicago, O Lado Bom da Vida), primeiro na Miramax e depois na Weinstein Company, conseguiram mais de trezentas indicações ao Oscar, e, na cerimônia do prêmio principal da Academia, o produtor era sempre citado nos discursos de agradecimento -- só perdia pra Spielberg e pra Deus. Ele era (é?) um dos homens mais poderosos de Hollywood.
Com Hillary Clinton em 2012
Aos 65 anos, sua persona pública era a de um cara que apoiava a luta das mulheres (por exemplo, sua empresa distribuiu The Hunting Ground, documentário sobre assédio sexual nas universidades, e ele doou para que fosse concedida uma bolsa na Rutgers no nome do ícone Gloria Steinem). Era um humanitário. Apoiava o Partido Democrata. 
Um dos hotéis em Beverly Hills
em que Weinstein "recebia" as
atrizes
Seu modo operante mais básico (além das acusações de estupro) era convidar atrizes, assistentes e funcionárias para uma reunião de negócios no seu quarto de hotel, e lá insistir para que elas o vissem tomando banho (às vezes ele aparecia nu na frente delas, às vezes, só de roupão) ou aceitassem uma massagem dele ou o massageassem. Para algumas atrizes ele contava sobre as estrelas com quem tinha dormido. Para outras ele garantia que tinha um acordo especial com a esposa. 
Viola Davis: "Para os predadores... Weinstein, o desconhecido, o parente, o namorado... Eu digo a vocês, 'Vocês podem escolher seu pecado mas vocês não podem escolher as consequências"
Durante anos, pelo menos oito mulheres fizeram "acordos confidenciais" com Weinstein (ou seja, para barrar processos, ele pagou altas quantias a elas). 
Todas as pessoas que Farrow entrevistou disseram ter medo da retaliação de Weinstein, já que ele teria poder pra destruir suas vidas. Atrizes como Mira Sorvino e Rosanna Arquette afirmaram que, depois de rejeitarem as propostas do produtor, suas carreiras despencaram, pois ele passou a fazer campanha contra a contratação delas. 
Recentemente, só nos EUA, homens poderosos como Donald Trump, o apresentador reaça Bill O'Reilly, o presidente da Fox News Roger Ailes, e o astro Bill Cosby (foi preciso que um comediante homem fizesse piada sobre os assédios de Cosby para que eles viessem à tona), foram acusados de "má conduta sexual". 
Com Gwyneth Paltrow em 2002
As primeiras tentativas de Weinstein em contornar as acusações falharam. Ele contratou uma advogada feminista, Lisa Bloom (que pediu demissão assim que novos casos de abuso foram surgindo). Pediu desculpas às vítimas, reconheceu que tinha um problema, disse que estava fazendo terapia, e que tiraria um tempo do trabalho. Não funcionou: pouco depois, foi despedido da sua própria empresa (outros quatro executivos do conselho da empresa -- que só tem homens -- se demitiram). 

Michael Keaton: "H. Weinstein... eca! Nojento e assustador. Assim como o 'líder do mundo livre', aliás"
Com a ex-esposa Georgina Chapman
Além de perder o emprego, perdeu a esposa. Georgina Chapman terminou o casamento de dez anos e declarou: "Meu coração está partido por todas as mulheres que sofreram uma dor gigantesca por causa desses atos imperdoáveis". 
A atriz Ashley Judd foi uma das vítimas (outra foi Rose McGowan. O Twitter suspendeu sua conta por ela falar contra Weinstein). 
Weinstein com Rose McGowan
Era 1997, e Judd havia filmado Beijos que Matam até altas horas. Estava exausta, mas quando Weinstein a chamou para tomar café da manhã, ela achou que era importante, relacionado a trabalho. Ficou surpresa quando viu que o café seria na suíte dele, não no restaurante do hotel. Ela lembra que pediu cereal, na esperança que chegasse rápido e ela pudesse ir embora logo. 
Ashley Judd com Weinstein e
Vince Vaughn no Oscar de 1997
Weinstein começou com as "propostas". Ele podia fazer massagem nela? Ela recusou. Talvez uma massagem nos ombros? Ela recusou também. Ele pediu para que ela escolhesse as roupas dele para o dia, e perguntou se ela podia vê-lo tomar banho. "Eu disse não de muitas maneiras, muitas vezes, e ele sempre fazia um novo pedido". Para conseguir sair do quarto, ela finalmente falou que, se ele quisesse tocá-la, ela antes teria que ganhar um Oscar por um de seus filmes. Ela contou isso pra sua mãe na mesma época e também em entrevistas, sem nomear o assediador. 
Kevin Smith: "Ele financiou os primeiros 14 anos da minha carreira, e agora sei que, enquanto eu estava lucrando, outras passavam por sofrimentos horríveis. Isso me envergonha"
Eu vi reaças atacando Ashley Judd (porque ela é assumidamente feminista). Ou a chamam de mentirosa, ou a acusam de se oferecer. É impressionante. É um desconhecimento flagrante de como o poder funciona e de como as mulheres são doutrinadas para serem sempre educadas. E é muita hipocrisia também: aposto como esses que criticam Judd aceitam tudo que seus "chefinhos" falam. 
Já existe todo o preconceito antigo que atrizes são "mulheres da vida", que não são corretas. O "teste do sofá" é uma velha instituição do cinema. A misoginia cotidiana faz com que as mulheres que são forçadas a passar por esse "teste" se quiserem ter uma carreira sejam vistas como culpadas, prostitutas, sem caráter. Os chefões que impõem isso às suas subordinadas estão apenas curtindo a vida, aproveitando a "influência" que têm. Já vi gente dizendo que os chefões é que são as vítimas, pois as atrizes abusadas é que estariam tirando proveito deles, tadinhos.
Meryl Streep condenou Weinstein
mas disse "Nem todos sabiam"
Depois da corajosa Judd, Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow e Heather Graham vieram a público acusar Weinstein. Até ontem, 32 atrizes e mulheres da indústria do cinema já tinham acusado Weinstein, num caso que diz muito sobre o desequilíbrio de poder em Hollywood e o silêncio imposto às mulheres.
Russell Crowe
Faz décadas que os rumores sobre o comportamento sexual predatório de Weinstein eram discutidos (seu temperamento explosivo e seu jeito bullying de ser são conhecidos). Em 2004, treze anos atrás, o jornal NYT ia publicar uma reportagem sobre os assédios sexuais do produtor, mas atores como Russell Crowe e Matt Damon ligaram para a jornalista pedindo para parar com as investigações. 
"Não tenho medo de você",
diz Ambra Gutierrez
A modelo italiana Ambra Battilana Gutierrez é uma das poucas que está processando Weinstein. Em 2015, ela contou a autoridades de Nova York que Weinstein havia agarrado seus seios e posto a mão por baixo de sua saia quando ela esteve no seu escritório em Tribeca. No encontro seguinte, a polícia lhe deu um grampo para gravar a conversa. Você pode ouvir a gravação aqui. É perturbadora. Ouça o número de vezes que Gutierrez recusa. Mesmo com a gravação (em que Weinstein admite ter tocado os seios da modelo), a promotoria de NY optou por não prestar queixa contra o produtor. 
Com Asia Argento em 2004
A atriz italiana Asia Argento contou a Farrow que ela tinha 21 anos quando Weinstein a convidou para uma festa que nunca aconteceu. Lá, no quarto de hotel, ele fez sexo oral nela, apesar d'ela repetidamente recusar. Como ela não lutou fisicamente, enfrentou anos de culpa. Ainda assim, ele continuou a contatá-la e ela se tornou sua amante durante vários anos. "Depois do estupro, ele ganhou", disse ela. 
Em 2000 ela escreveu e dirigiu o filme Scarlet Diva, em que ela faz uma personagem a quem é oferecida uma massagem num quarto de hotel mas consegue escapar de um estupro. Muitas mulheres reconheceram o "padrão Weinstein" e foram falar com Argento. 
Ainda planejo publicar algum outro post sobre Weinstein e o que ele representa, porque o caso tem força para começar a mudar essa rotina de assédios.
E não sei se soa tão familiar pra você quanto soa pra mim: um sujeito respeitado, bastante poderoso, com reputação de feminista, assediava mulheres durante anos, contava pra elas sobre as feministas que tinha levado pra cama, narrava suas conquistas, alegava ter um relacionamento aberto com a namorada. Eu publiquei o relato de uma das moças que foi vítima dele. Várias mulheres, inclusive feministas, ficaram do lado dele. Nada aconteceu com ele. Hoje o cara está me processando, pedindo 300 mil reais de indenização.
Não são casos isolados. Fazem parte de um sistema de opressão.
Gwyneth Paltrow: "Essa forma de tratar as mulheres acaba agora"